Aporte leva TFFF a US$ 7,2 bilhões e deixa mecanismo criado pelo Brasil a US$ 2,8 bilhões do mínimo necessário para começar a operar
O governo do Reino Unido anunciou nesta quinta-feira um empréstimo de £ 400 milhões ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo internacional criado para financiar, de forma permanente, países que mantêm suas florestas em pé.
Com o aporte britânico, os investimentos anunciados para o TFFF chegam a US$ 7,2 bilhões, restando US$ 2,8 bilhões para atingir a base inicial de US$ 10 bilhões necessária até o fim de 2026 para que o fundo comece a operar.
A lógica por trás do financiamento de florestas
Além de armazenar carbono e proteger a biodiversidade, florestas tropicais têm papel importante na regulação das chuvas e, consequentemente, na produção de alimentos. Estudos vêm mostrando que a conservação de florestas no exterior também é relevante para a segurança alimentar da Europa, do Reino Unido e de outros países importadores.
As bacias Amazônica e do Congo, por exemplo, ajudam a regular chuvas em regiões agrícolas responsáveis pela produção de commodities como café, cacau e soja. Com o avanço do desmatamento e das alterações no regime de chuvas, aumentam também os riscos para a produção e os preços desses produtos.
Um dos problemas históricos da conservação florestal é a falta de uma fonte estável e permanente de recursos para povos indígenas, comunidades locais que ajudam a manter a floresta em pé, além de agricultores e governos dos países detentores de florestas.
O TFFF foi lançado oficialmente durante a COP30, em Belém, no fim de 2025, com US$ 6,7 bilhões em compromissos iniciais, e tenta mudar essa lógica.
Seu braço de investimentos, o Tropical Forest Investment Fund, deverá combinar capital público e privado e aplicar os recursos em títulos de renda fixa de baixo risco. Os rendimentos serão usados para fazer pagamentos anuais aos países tropicais por hectare de floresta conservado ou restaurado.
Países que não cumprirem os critérios mínimos de cobertura florestal definidos pela governança do fundo não receberão os pagamentos. A expectativa é também que os investidores iniciais recuperem integralmente os recursos aportados ao longo do tempo.
A estruturação do Fundo
A arquitetura definitiva do TFFF e de seu braço de investimentos ainda está em construção. Entre os pontos pendentes estão regras de integridade ambiental, a estrutura operacional do fundo e os mecanismos para garantir que 20% dos recursos cheguem diretamente a povos indígenas e comunidades locais.
Por enquanto, o Banco Mundial atua como administrador e sede interina do secretariado. A intenção, porém, é que o Tropical Forest Investment Fund se torne uma instituição jurídica independente, com estrutura própria de governança fora do Banco Mundial.
Por que US$ 10 bilhões?
Os US$ 10 bilhões são considerados a base mínima de capital público necessária para reduzir os riscos do investimento inicial e começar a atrair recursos privados.
No fim de 2025, a Noruega prometeu US$ 3 bilhões ao longo de dez anos, condicionando o aporte ao alcance da marca de US$ 10 bilhões até o final de 2026 — uma forma de estimular a entrada de outros países.
O anúncio britânico reduz agora a distância para essa meta e aumenta a atenção sobre potenciais financiadores como Canadá, Países Baixos, China e Emirados Árabes Unidos, que já manifestaram apoio ao mecanismo, mas ainda não anunciaram investimentos.
Depois de alcançar os US$ 10 bilhões, o conselho interino, copresidido por Brasil e Noruega, poderá avançar em direção à meta de US$ 25 bilhões em capital patrocinador, considerando todas as fontes.
Reações
Simon Lewis, professor de Ciência da Mudança Global da University College London, afirmou que mecanismos de compensação financeira são essenciais para tornar a conservação viável em regiões onde comunidades dependem economicamente da conversão da floresta.
“Exigir que parem sem oferecer compensação financeira não funciona. Alimentar os filhos sempre falará mais alto”, disse. Para Lewis, o apoio britânico ao TFFF pode ajudar a reduzir o desmatamento ao permitir que governos e comunidades se desenvolvam sem destruir as florestas.
Carlos Rittl, diretor de Políticas Públicas da WCS e colaborador no desenho ambiental do TFFF, disse que o aporte britânico aproxima o mecanismo de sua entrada em operação.
“O aporte do Reino Unido nos leva mais um passo adiante, de uma ideia impulsionada pelo Brasil para algo próximo de se tornar operacional”, afirmou. Segundo ele, a conservação das florestas interessa não apenas aos países que as abrigam, mas também àqueles que dependem delas para cadeias de suprimento resilientes e preços de alimentos mais estáveis.
Marcelo Behar, enviado especial da COP30 para Bioeconomia, destacou que o mecanismo foi desenhado para combinar retorno financeiro e conservação. “O sucesso do TFFF será mais do que financeiro”, afirmou. Segundo ele, o fundo pode direcionar recursos a povos indígenas e comunidades locais que hoje protegem as florestas sem receber retorno proporcional por esse trabalho.
Nina Seega, diretora do Centro de Finanças Sustentáveis do Cambridge Institute for Sustainability Leadership (CISL), afirmou que o compromisso de £ 400 milhões aproxima o TFFF de um modelo de investimento viável para investidores privados.
“O sistema alimentar e o sistema financeiro britânicos estão em modo de crise devido à exposição à mudança climática e à perda da natureza”, disse. “Não há tempo a perder se quisermos salvar as florestas tropicais do mundo e estabilizar os sistemas dos quais todos dependemos.”
Fonte: ClimaInfo